ERP Agêntico / Tese/Edição 2
Tese da edição

A semana em que a SAP redefiniu "agêntico", e o que sua próxima RFP vai herdar disso

No keynote do Sapphire 2026, SAP apresentou a Autonomous Suite com 224 agentes e o conceito de 'company memory'. O vocabulário do anúncio é mais consequente que os agentes, vai estar em toda RFP brasileira nos próximos 6 meses.

№ 004 · EDIÇÃO 2 · 9 MIN TESE

Em 2025, "ERP agêntico" virou termo de RFP. Em maio de 2026, a SAP definiu o que ele significa, e, sendo a maior fornecedora de ERP do mundo, o que ela diz pesa.

No keynote de abertura do SAP Sapphire 2026 essa semana, Christian Klein abriu com uma pergunta que parecia retórica e não era: "Will SAP be a software company in the future?" Em seguida, apresentou a Autonomous Suite, uma reorganização do portfólio em torno de 224 agentes especializados e 51 assistants, sustentados por uma camada chamada SAP Business AI Platform que unifica BTP, Business Data Cloud e Business AI.

Não vou comentar sobre os agentes em si. Vou comentar sobre o vocabulário.

Por que o vocabulário importa mais que o anúncio

Há três termos no anúncio do Sapphire que vão estar em todas as RFPs brasileiras nos próximos seis meses, queiramos ou não:

  1. "Autonomous Suite": passa a ser a marca-d'água do mercado para "ERP que executa processos sozinho". Quem não usar "autonomous" vai parecer atrasado. Quem usar vai precisar provar.
  2. "Company memory": a SAP nomeou explicitamente a camada que diferencia copilot (sem memória de longo prazo) de agente (com memória persistente e contextual). É um termo bom, e provavelmente vai pegar.
  3. "AI governance layer": saiu da categoria de "nice to have descrito como auditoria" para virar uma camada de produto. Implícito: ERP agêntico sem essa camada já não é agêntico maduro.

Isso muda como uma empresa brasileira faz RFP. Antes do Sapphire 2026, perguntar "como você audita seu agente" era pergunta de comprador sofisticado. Depois do Sapphire 2026, é checklist obrigatório.

Aplicando nossa taxonomia ao que SAP anunciou

Na edição inaugural, propusemos três camadas: Aumentado, Agêntico, Orquestrado. Olhando o anúncio do Sapphire 2026, a Autonomous Suite cobre principalmente Camada 2 (ERP Agêntico, agentes especializados em escopo definido) com partes de Camada 3 (ERP Orquestrado, a "company memory" como camada de coordenação entre agentes).

Os 51 assistants, distintos dos agentes, são Camada 1 (ERP Aumentado, assistência sob aprovação). A SAP nomeou explicitamente os dois (assistant vs agent), o que é um sinal saudável: o vocabulário deles distingue, mesmo que o marketing combine os dois numa mesma frase.

A pergunta para o comprador brasileiro: quando o fornecedor disser "temos 224 agentes", quantos deles estão em Camada 1 disfarçada de Camada 2? Resposta honesta provavelmente: muitos. Não tem nada de errado, copilot é útil, mas o preço deveria refletir.

O movimento da indústria foi paralelo

Não foi só a SAP esta semana:

  • A Cognizant anunciou em 7 de maio os Secure AI Services, focados em "provable trust", auditoria de agente em build time e runtime.
  • A SAP + NVIDIA publicaram a parceria para "co-define enterprise-grade agent execution".
  • O Gartner Hype Cycle 2026 posicionou agentic AI governance, security, FinOps como categorias próprias, separadas da categoria "agentic AI" guarda-chuva.

A conversa do mercado passou de "qual modelo de fundação tem melhor benchmark" para como audita, governa, e contabiliza o agente. A SAP, sendo a maior, acelerou esse pivot porque tinha mais a perder se errasse a governança.

Implicação para o financeiro brasileiro

Três efeitos práticos esperados:

Próximos 30 dias: seu fornecedor atual de ERP, independente de quem seja, vai marcar reunião para "apresentar nossa roadmap de IA". A maioria dessas conversas vai imitar o vocabulário do Sapphire 2026 sem ter a substância por trás. Pergunta-chave para fazer: peça demonstração de auditoria, não de inferência. Demonstração de inferência é trivial; auditoria é onde os atalhos aparecem.

Próximos 90 dias: RFPs começam a incluir "AI governance layer" como requisito, sem qualquer definição. Quem souber definir vai negociar melhor.

Próximos 12 meses: a categoria "ERP agêntico" vai se dividir em dois grupos visíveis, fornecedores com plataforma de governança real (SAP, Workday, Microsoft, alguns AI-natives maduros) e o resto. Mid-market brasileiro vai precisar escolher entre custo do primeiro grupo e maturidade incerta do segundo.

O compromisso editorial

A partir desta edição, em cada análise de produto que envolva "Autonomous Suite", "company memory" ou "AI governance layer" como termos, vamos especificar qual definição estamos usando: a da SAP, a nossa taxonomia, ou outra. Para que dois lados de uma mesa de negociação não comprem coisas diferentes pensando que estão comprando a mesma.

Te encontro terça que vem.


Fontes: SAP Sapphire 2026 keynote (erp.today) · Constellation Research, SAP Autonomous Enterprise · Cognizant Secure AI Services · SAP + NVIDIA enterprise-grade agents · Gartner Hype Cycle for Agentic AI

JF

José Formiga

AUTOR & EDITOR · ERP AGÊNTICO

Líder executivo na Nasajon dirigindo uma operação de ERP/SaaS B2B em escala, ao longo de todo o ciclo do cliente. Aqui no ERP Agêntico, escreve sobre o mercado de ERP, o impacto de agentes autônomos em sistemas de gestão empresarial, e a transição da operação de cliente quando IA passa a executar processo, não só sugerir.

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